sábado, 18 de fevereiro de 2012

DE VOLTA AO PASSADO CAP; V




"- Olha Adolfo, há alguns anos atrás, por obra do destino, eu fui presenteada com uma pequena árvore, que com o passar do tempo foi se tornando frondosa. E em seus galhos eu encontrava sombra para meu abrigo, em seu tronco eu encontrava proteção ao nele aconchegar-me. Mas um dia veio uma chuva que conseguiu sujar de lama seus galhos mais baixos a medida que a ventania a fazia contorcer-se e seus galhos virem ao chão. Mas tal como chegou, o temporal se foi..."



CONTINUAÇÃO:

CAPÍTULO V

Um choro próximo trás a Anny de volta a realidade. Corre ao quarto e vê a Carla tentando acalentar a irmãzinha, a Kátia, que chora impaciente, Ela põe a filhinha no braço, cantarola para ela e esta volta a dormir, Agradece a Carlinha pela ajuda e vai para a cozinha cuidar do almoço. Mas percebe movimento na rua, vai até a sala e pelo cobogó observa rapidamente uma mudança que está chegando, o motorista chama a sua atenção, pois ele lhe lembra alguém... O Zé Luis... Imediatamente retorna a muitos anos atrás.

Amanheceu! O dia está lindo, os pássaros fazem um grande barulho. Ela observa a tudo indiferente. Ela não conseguira dormir. A noite fora dolorosa para ela. Levantara pela madrugada e havia ficado observando o Adolfo que dormia na sala... A visão dele dormindo tão tranquilo a inquietava ainda mais. Saíra rápido com medo de acordá-lo.
Ela sabe que terá que enfrentá-lo, sabe que é necessário terem uma conversa franca e resolver aquela situação que já está se tornando constrangedora.
Parada na porta da cozinha, ouve os passos e sente serem do Adolfo.
Bom dia Anny, dormiu bem?
Ela não responde. olha-o de soslaio... Ela sabe que não adianta fingir, mentir ou negar, mas o seu íntimo está espelhado em seu semblante.
-Anny, onde você quer que eu a espere para termos uma conversa? poderei ir apanhá-la no trabalho?
- Não, espere-me na praia no horário que eu mais gosto.
E assim dizendo ela se despede. Mas ela não foi trabalhar, pedira dispensa naquela manhã e vai pra casa da Ivalda, pois ela precisa falar com o Zé Luis. Tomam o café da manhã juntos. Ela conversa com os amigos e explica que precisa fazer a sua mudança, pos já conseguiu uma pequenina casa, mas que será o suficiente para ela e para a filha. Zé Luis se prontifica a ajudar, irá pedir autorização na empresa em que trabalha e conseguindo, usará o caminhão da firma. Sabe que conseguirá resolver esse problema e pede pra Anny não se preocupar com aquilo. Marcam tudo para a próxima da semana. Ela muito agradecida, se despede e ruma para o trabalho.
A tarde transcorreu numa calma de abalar os nervos dela, o momento está chegando, o confronto final está para acontecer, era preciso ser forte para suportar tudo o que
estivesse por vir.
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apesar de que naquela manhã, a d. Rita ter tentado convencê-la de que o Adolfo não queria nada com a moça em questão, que ele a amava, com ela já tinha uma filha, mas a Anny não conseguia ter paz, estava terrivelmente deprimida e não tinha certeza de mais nada.
- Demorei muito?
- Não Anny, e eu gostei de ficar um pouco só. Longe dos problemas ajuda muito a pensar e ver melhor a situação, e assim conseguimos encontrar soluções para tudo o que vem nos tirando o sono. Não vai sentar Anny?
Ela senta... Tem as pernas tremulas, o coração em tumulto e a alma dilacerada, e pensa: - Meu Deus! de-me coragem para encarar o Adolfo e dizer-lhe tudo o que eu tenho guardado durante todos esses dias.
Ela fica a olhá-lo. Sente ânsias de atirar-se nos braços dele e chorar toda a sua
mágoa, dizer que eles poderiam esquecer tudo, pois na realidade não importava mais o que havia acontecido, afinal eles já eram uma família, e se havia tanto amor entre eles, os desencontros só aconteciam por falta de diálogo, agora era chegado o momento da verdade, tudo teria que ser esclarecido, e só restaria para eles o presente e o futuro, o passado não tinha mais importância. Mas ela não consegue realizar o seu desejo, ao invés disso esquece o coração e deixa falar a voz da razão.
Nesse momento o Adolfo a olha profundamente... Afastá-lhe os cabelos revoltos do rosto e os afaga ternamente, ela porém se afasta bruscamente, encara-o e murmura tristemente :
- Não Adolfo, por favor.
Ela então se afasta, e um pouco mais calma volta a falar:
- Olha Adolfo, há alguns anos atrás, por obra do destino, eu fui presenteada com uma pequena árvore, que com o passar do tempo foi se tornando frondosa. E em seus galhos eu encontrava sombra para meu abrigo, em seu tronco eu encontrava proteção ao nele aconchegar-me. Mas um dia veio uma chuva que conseguiu sujar de lama seus galhos mais baixos a medida que a ventania a fazia contorcer-se e seus galhos virem ao chão. Mas tal como chegou, o temporal se foi, deixando atrás de si uma chuva fina que conseguiu lavar todos os galhos deixando outra vez as sua folhas limpas. E essa minha árvore

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voltou a ser para mim a mesma de antes. Porém, após meses de bonança, sobreveio uma forte tempestade e esta foi violenta. Um raio conseguiu atingir e destruir parte dessa árvore. Apesar de toda a sua fortaleza, ela não resistiu a uma segunda tempestade.
- Anny, por acaso essa árvore sou eu?
- Sim Adolfo, esta minha árvore é você.
- Anny, dessa vez você me emocionou, é muito profunda essa comparação... Mas o que você está querendo dizer com tudo isso Anny, qual a sua conclusão final?
- É muito simples Adolfo, quero fazer você ver e entender que apesar de toda essa fortaleza que eu acreditei existir nessa árvore, ela foi fraca, assim foi você, e deixo bem claro que desse modo, a minha admiração por você está morrendo.
Após ela falar assim, eles ficam se olhando, ela, depois de ter concluído seu pensamento, em sua garganta deixa preso todo o sentimento que ela realmente gostaria de ter gritado, não só gritado... Mas demonstrado. Em seus olhos bailavam as lágrimas que com certeza iriam rolar, caso ele falasse alguma coisa. Mas ele apenas ficou fitando-a, e em seus olhos ela pode ler tudo o que ele gostaria de dizer-lhe mas que naquele momento não se atrevia, não se achava no direito, e ela não foi capaz de deixar o coração falar, ao menos uma vez, sentia medo... Medo de se machucar novamente, ou quem sabe, as palavras de amor presas em sua garganta, poderiam não encontrar eco no coração do Adolfo.
Ela fica olhando firme dentro dos seus olhos, sustenta aquele olhar que parecia querer invadir a sua alma e pensa: - Ah! Adolfo, nunca imaginarás como foi difícil para mim ser dura e amarga. Como eu gostaria de ter-lhe dito que eu iria continuar cuidando da minha árvore, tentando dar-lhe forças para continuar a resistir e vencer toda e qualquer desgraça que por ventura se abatesse sobre ela e que juntos i´riamos vencer a tudo e todos e que essa árvore voltaria a ser frondosa, para que eu pudesse encontrar abrigo em suas folhagens. Mas nada disso eu fui capaz de lhe falar, ou então demonstrar, e assim, eu bem sei Adolfo que mais uma vez iremos nos separar.
E ela infelizmente com o passar dos dias iria descobrir o quanto isso ainda iria lhe custar, esse seu gesto de dignidade ferida. E a partir daquele momento ela iria

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compreender que o Adolfo ela só teria nas entrelinhas do que pudesse escrever.
Ela deixa o Adolfo na beira da praia e se encaminha rápido para a casa dele. Pela primeira vez, o por do sol não tivera brilho... Nem cor.
Chega rapidamente, pega a filha e se dirige para a casa da d´. Rita, a sua tia. Ao chegar, desabafa com a tia e mais uma vez tem um ombro amigo pra chorar. Ao voltar, pra casa, já é um pouco tarde. A d. Rita estava no terraço como a esperá-la. Nada pergunta, pega a netinha nos braços e diz a ela que vai pôr a menina pra dormir. Anny permanece no terraço, não sabe por quanto tempo... Pensa, pensa e não consegue raciocinar com clareza. A d. Rita volta e diz a ela que a menina já está dormindo. Se despede da Anny e diz que vai dormir. Anny entra e vê o Adolfo na sala, ele está assistindo televisão. Ela passa rapidamente, entra no quarto, em seguida vai pro banheiro tomar banho, ao sair o Adolfo a chama:
- Anny, vem até aqui... Por favor.
Ela se aproxima e fica parada em frente a ele.
- Diga Adolfo, o que você quer?
- Sente aqui Anny.
Ela senta, nisso o Adolfo deita no colo dela e começa a falar.
- Anny, foi tão lindo tudo o que houve entre nós Mas acabou não é?
Ela chora silenciosamente e nada responde. Ele a beija na coxa e começa a cariciando-a ternamente. Ela sente que ele está louco de desejos, as mãos trêmulas dele desliza suavemente por suas pernas e fala com a voz entrecortada:
- Anny, eu sou louco por suas pernas, tens as coxas mais lindas que já vi... Os olhos mais belos e enlouquecedores, os cabelos mais macios e deliciosos de se afagar, tudo em você é gostoso de se tocar...
Volta a beijar as coxas dela, mas a Anny se levanta e vai para o quarto.
No dia seguinte ela tem uma surpresa ao levantar, o Adolfo não está em casa, ela não sabe se ele havia viajado, mas ela não procura saber, e calada sai e passa o dia na casa da tia.
- E então Anny, como está o emprego?
- Está tudo bem tia, eu gosto quando estou lá, pelo menos enquanto trabalho, não

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tenho tempo para ficar pensando nos problemas da vida, também, logo vou poder resolver a minha situação, é que eu essa semana aluguei uma casinha, é pequenina, mas está bem pra Carla e eu, minha preocupação agora, é arrumar alguém de confiança que possa cuidar dela enquanto eu trabalho. Por acaso você conhece alguém tia?
- Talvez Anny, depois lhe darei uma resposta, mas enquanto nada estiver certo, traga ela pra cá.
- Não dá tia, você agora tem duas crianças, e olha que o Davi é da mesma idade da Carla.
_ Não vá se preocupar com isso minha filha. Pra tudo se dá um jeito.
O restante da semana passou rapidamente. Anny não viu mais o Adolfo, nem tão pouco procurou saber qualquer notícia.
- D. Rita, será que a senhora pode ficar com a sua neta até um pouco mais tarde?
- Por que Anny, por acaso vai sair depois do trabalho?
- Bem d. Rita, é que eu tenho um assunto urgente pra resolver depois que eu largar, e se eu for levar a Carla não vai dar certo, a senhora sabe como é criança, só vai atrapalhar.
- Tudo bem Anny, é claro que eu fico, e divirta-se minha filha.
Ela fica olhando pra d. Rita e nada mais diz. Sai para trabalhar pensativa. Ela sabe que deu a entender que ela tinha um compromisso, provavelmente um encontro, mas ela não liga mesmo para o que está fazendo, ocultando fatos que nada tem de mal. Apenas dando uma ideia errada do seu comportamento e do seu caráter.
- Vera, eu preciso ia até a casa da minha tia, é aqui pertinho, se o chefe perguntar por mim, diga-lhe que já volto, ou então não fale nada, eu estou na hora do meu almoço.
- tudo bem Anny, isto serve para qualquer pessoa que perguntar por você?
- Sim vera, para qualquer pessoa.
Ela sai apressada e se dirige para a casa da tia.
- Oi Anny, você por aqui a essa hora?
- Oi tia.
- Alguma novidade, minha filha?

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- Sobre o Adolfo? não tia, nenhuma.
- E você minha filha, quer saber alguma coisa que possa ter acontecido hoje, é isso? na verdade eu acho que sei o que você veio saber, se a d. Rita esteve aqui e se me falou que você tem um encontro hoje, e que não vai levar a menina porque criança atrapalha muito.
- Então eu pensei certo. Ela falou mais alguma coisa tia?
- Ela disse que esperava que fosse um rapaz direito e que não fizesse você sofrer, porque ela gosta muito de você e só quer vê-la feliz com o filho dela ou qualquer outro rapaz.
- Ela vai esperar muito por isso tia. Eu não disse que tinha um encontro e que por essa razão a Carla ia atrapalhar. Eu apenas perguntei se ela podia ficar um pouco mais de tempo com a menina porque eu tinha um compromisso e não dava pra levar a Carla, pois ela não ia ficar quieta e terminaria me atrapalhando.
- E o que é que você tem para fazer minha filha?
- Vou lavar a casa que eu aluguei tia, fica aqui perto.
- Oh! Anny, por que você não disse isso pra ela?
- Ora tia, vai que de repente o Adolfo chegasse e perguntasse por mim, já imaginou eles conversando sobre o que eu poderia estar fazendo e depois eu chegasse e olhasse para eles com uma carinha bem inocente e falasse a verdade?
- Anny, você não vai crescer nunca, você não toma jeito mesmo.
Ela sai rindo, despede-se da tia e volta para o trabalho. Ao chegar lá, a Vera diz que um rapaz a procurou, que não disse o que queria nem quem era. ela não dá importância.
- E então Anny, divertiu-se muito ontem?
- Não, eu não achei nada divertido, e até que foi muito cansativo. e já que a senhora tocou no assunto, será que dá pra ficar um pouco mais com a Carla, hoje também? é que muito provavelmente hoje vou demorar.
- Claro minha filha, sempre que você tiver algum compromisso, é só falar comigo.
- Obrigada d. Rita.
Anny se dirige para a saída, dá um beijo na filha e olha divertida para as

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fisionomias da d. Rita e da Mariluce.
Nessa mesma noite o Zé Luis Ajuda a Anny com a mudança, em conversa ele diz que a procurou no dia anterior para confirmar a mudança, mas ela havia saído.
É verdade Zé, a Vera me disse, mas eu não sabia que era você.
- Eu achei melhor não falar nada, não sabia se devia.
- Sem problemas Zé. Obrigada por esse grande favor, se não fosse você eu não sei como seria.
Ele ri e diz que amigo é pra essas coisas.
Nessa mesma noite a Anny faz a sua mudança e deixa tudo pronto, a casa é pequenininha, mas ficou bonita depois de tudo arrumado.
- Até que não terminou muito tarde Anny, eu pensei que fosse demorar mais.
- Eu também achei Zé, até estava preocupada, mas graças a Deus e a você a minha vida está tomando um novo rumo a partir desse momento.
O Zé Luis se despede e a faz prometer que se necessário não deixará de procurá-los.
Ela sai e se dirige para a casa do Adolfo, ao chegar pergunta pela filha.
- D. Rita, a Carla está ai?
- Não Anny, ela saiu um pouco com a Mariluce mas volta logo, já eu pensei que você fosse demorar um pouco mais.
- Está bem, eu espero.
- Você não vai jantar, minha filha?
- Não, obrigada. É que eu estou muito cansada, prefiro um bom banho e cama. Enquanto eu tomo banho, a senhora poderia arrumar as coisas da Carla?
- Por que Anny, você vai levá-la a algum lugar?
- Sim d. Rita, nós vamos embora daqui a pouco, mas não se preocupe é para bem perto daqui, a senhora poderá ir lá a qualquer hora que quiser. Quero aproveitar também para lhe agradecer pelo que fez por nós, jamais pagarei tamanho favor, pois quando nós mais precisávamos, vocês nos acolheram, abriram os braços sem medir esforços ou consequências. Agradeça ao seu Antunes, tão logo eu possa virei aqui agradecer pessoalmente.

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- Anny, acho que não entendi direito o que você me falou.
- Ontem eu pedi pra senhora ficar até um pouco mais tarde com a Carla. que eu tinha um compromisso e que a minha filha só iria atrapalhar, lembra?
- Sim Anny, mas o que tem a ver com tudo isso que você me falou.
- Tem tudo a ver... Ontem eu fui lavar uma casinha que eu consegui alugar aqui perto,
e hoje eu fui fazer a mudança, por isso não dava pra levar a Carla... Não foi nada do que a senhora pensou e... Comentou.
- Desculpe minha filha, eu não sabia, eu pensei...
Anny não a deixa completar a frase.
- Desculpe d. Rita, mas quando se tratar de mim, nunca pense, pois eu sou muito imprevisível. Ah! d. Rita, posso levar o travesseiro do Adolfo que estamos usando?
- Claro Anny, com certeza. Mas você não acharia melhor dormir aqui essa noite?
- Não d. Rita, é melhor que não, de repente o Adolfo chega, e eu não gostaria de tornar a vê-lo.
- Tudo bem minha filha, como você quiser, só lhe peço que venha nos visitar sempre que você puder... Me acostumei muito a vocês.
- Não se preocupe, sempre que der eu virei.
Enquanto a Anny tomava banho . a d. Rita arrumava as coisas da neta.
Amanheceu!... A Anny olha em volta e parece não acreditar, está no seu cantinho outra vez... É um domingo ensolarado, mas para ela isso era indiferente.
Vai até a casa da tia e almoça com ela, conversam um pouco e um pouco mais tarde, aparece uma mocinha, era a Sueli, a jovem que a sua tia havia arrumado para cuidar da Carla.
A segunda-feira até que demorou pra chegar... Ela não gostava de ficar sem fazer nada, pois a sua mente era incansável em torturá-la com lembranças...
Os dias foram se passando... a Sueli vivia mais na casa da tia da Anny do que em casa, o que a deixava mais tranquila, e a Carla estava muito acostumada em ficar brincando com o priminho, o Davi, ambos da mesma idade se entendiam perfeitamente e enquanto a Sueli olhava os dois a d. Rita ficava mais tranquila pra cuidar dos seus afazeres.

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A Anny passou a viver numa constante rotina, era do trabalho pra casa e de casa pro trabalho, visitou a d. rita uma vez, mas não procurou saber do Adolfo, não precisaria saber qualquer notícias dele. Dias após a mudança, a Sueli ainda não tinha ido pra cada da tia da Anny quando o Adolfo chegou, conversou com a menina, dispensou a babá e ficou tomando conta da filha. Quando já estava perto da Anny chegar, ele pegou a Carla e deixou na casa da tia.
- Anny, o Adolfo chegou... ele mandou a Sueli largar e ficou na sua casa tomando conta da filha, e só trouxe a menina ainda há pouco, ele disse que você poderia não gostar de encontrá-lo na sua casa sem que você soubesse.
- Fez muito bem, se ele quiser ver a menina, nada farei para impedir, mas diga a ele pra evitar de estar em casa quando eu chegar.
- Está bem minha filha, darei o recado.
Anny pega a menina e volta pra casa, ao chegar prepara o mingau, dá um banho na filha e depois de alimentá-la a põe pra dormir. Mais tarde, no silêncio do seu quarto, ela fica pensando no Adolfo, sente as lágrimas correrem livremente pelo rosto. A innsônia se faz companheira naquele momento de intensa solidão. Ela se levanta, pega papel e lápis e começa a escrever, como tantas vezes o fizera, só que ela sempre rasgava, mas dessa vez ela iria guardar.
Pensativa começa a analisar seus sentimentos e passa tudo para o papel.
"Adolfo, do muito que fomos, pouco sobreviveu
da chama ardente daquele amor restou apenas cinzas,
as quais o vento espalhou.
Já não há o crepitar ardente de algo que em vão
tentei imortalizar.
Hoje existe apenas um sorriso apagado
um rosto de pedra, marcado
pelas gotas do pranto que não pude esconder.
Amei... Com intensidade vivi este romance feito de sonhos e ilusões.
Sofri... Com tenacidade suportei a trégua que não veio.
Corei... Por ver transformado meu ídolo, meu deus num humano qualquer.

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Amei...Sofri... Chorei, por um mito que a minha imaginação infantil criou, pois no íntimo tudo não passava de um pesadelo decorado de amor.
Anny larga o papel e o lápis e se dirige a janela. Acende um cigarro e começa um monólogo.
- Quantas vezes Adolfo eu fiquei a imaginar que tudo não passava de um terrível pesadelo, pois eu não me conformava, eu não aceitava que algo tão puro e belo acabasse assim, deixando apenas marcas de dor ao invés de ser só amor... Ah! como eu gostaria de entender o que houve realmente e talvez em mim não houvesse tanto rancor.
a noite é longa e angustiosa, e ela nem sequer imagina que mais um episódio estava pra acontecer. Ela entrega a filha aos cuidados da Sueli e vai para o trabalho. Ao final da tarde, ao retornar pra casa, uma surpresa esperava por ela. O Adolfo estava em casa cuidando da filhinha. Anny ficou louca de ciúmes e raiva, ela não admitia que ele desfrutasse daqueles momentos de pai, ela achava que esse direito apenas a ela cabia, usufruir do amor e do encanto da pequenina Carla, pois fora ela quem esperara a cada minuto pela chegada da filhinha, enquanto que ele se mantivera afastado. Mas ela o observa e nada diz, mostra uma indiferença que estava longe de sentir. Beija a filha e pergunta pra ele se sabe a que horas a menina comeu.
- Você sabe a que horas foi a última refeição da Carlinha?
- Sim, eu dei a mamadeira dela às dezesseis horas, e agora estava dando pera.
- Está bem, obrigada, agora pode ir, daqui pra frente é comigo.
Adolfo observa a Anny por alguns momentos. depois se aproxima da filha, beija-a e diz que outra hora estará voltando. passa pela Anny olha-a mais uam vez, demoradamente e se retira calado.
Chega o dia do primeiro aniversário da Carla, a Anny providenciou tudo para uma bonita festa. Os convites foram enviados, mas o nome do Adolfo não fora mencionado, ela não o queria na festa. Todos os convidados compareceram, menos o seu Antunes que estava trabalhando, da sua casa também não veio ninguém, era um dia de sexta-feira e todos trabalhavam. O Adolfo também não apareceu..Ele havia sido excluído do convite e entendera o recado. Mas a mãe dele fez questão de dizer que ele estava sozinho em

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casa. tudo transcorreu as mil maravilhas. O Renato, o irmão do Adolfo fez questão de assumir o lugar de dono da casa, pois segundo ele, já que o irmão não estava, cabia a ele representá-lo, Anny achou graça e concordou plenamente.
No final da festa, quase todos já haviam se despedido, o Renato continuava a sua missão de representante do irmão. Nisso o Renato fala pra ela:
- Anny, vamos deixar a Carla com a Sueli e darmos um pulinho na praia, você merece, afinal foi muito trabalho e tudo saiu perfeito... e então cunhadinha, que tal um mergulho nas mansas águas do mar? a essa hora deve estar uma delícia.
- Você está brincando ou falando sério Renato?
- Bem, maluquinha do jeito que você é, deve estar explodindo de alegria, não é?
- Mas é claro Renato, eu sou louca pelo mar à noite, e acredito que você sabe disso.
- Então vamos lá, mas esqueça o mergulho, vamos apenas passear pela praia, tenho a certeza que isso lhe satisfará.
E dizendo isso, ele passa os braços pelos ombros dela e se encaminham pra praia. A Sueli ficou com a menina, e a Anny prometeu que voltaria logo.
Caminharam tranquilos e conversaram bastante... falam sobre muitas coisas, mas não se toca no nome do Adolfo. De repente sem que o Renato tivesse tempo para qualquer reação, ela corre para o mar e de roupa e tudo, se lança na água.
- Meu Deus, você é mesmo louca menina: Grita o Renato.
Ela sai da água rindo, e não imagina o quadro que ela representa naquele momento.
- Está uma delicia renato! você nem imagina.
- Imagino sim Anny, imagino muito mesmo. - Fala o Renato, a medida que ela se aproxima dele.
- Renato toca o rosto dela e murmura:
- Anny, você está uma verdadeira tentação... Agora eu entendo o meu irmão... Agora entendo a loucura que é a paixão que ele sente por você. Se você não fosse a minha cunhada, nem sei do que eu seria capaz... Ver você assim... me fez pensar numa ilha deserta e tudo...
A anny não o deixa completar o pensamento. Pega-o pela mão e arrasta-o pra casa dizendo:

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- Venha Renato, já esta na hora de irmos e você precisa voltar pra casa, não convém que demores mais.
- Desculpe-me Anny, não me queira mal. apenas me deixei levar...
- Esqueça Renato.
Retornam calados. Ao chegar em casa ela faz questão de ignorar o que havia acontecido, e age como tal.
Dias depois ela consegue uma casinha um pouco melhor e bem mais perto da sua tia. Sempre que o Adolfo aparecia, dispensava a Sueli e ficava com a filha, e sempre procurava sair antes da anny voltar.
Certo dia, ao chegar, ela encontra a Sueli rindo.
- Qual foi a graça Sueli, que você está tão risonha?
- Sabe o que é Anny, o Adolfo acabou de sair, você não o viu?
- Não, eu não o vi, mas o que é que isso tem de tão engraçado?
- É que ele andou me fazendo algumas perguntas, e após ouvir as repostas, ele riu, tirou o relógio do pulso e deixou ai em cima da mesa.
- E daí, ainda não entendi onde está a graça?
- Ora Anny, ele me perguntou se você sempre chega em casa a mesma hora, se você sai ou recebe visitas. Eu falei pra ele que você nunca se atrasa, não faz hora extra, não sai de jeito nenhum nem tão pouco recebe visitas, exceto pela Vera, mas que é raro também. Ele então riu, deixou o relógio e depois se foi. Entendeu agora?
- Não, não entendi e confesso que já estou ficando irritada com essa conversa toda.
- Anny, ele ficou sabendo que você continua só como sempre, que não há ninguém em sua vida, só ele mesmo, então ele esquece o relógio e mais tarde vem buscá-lo, entendeu?
- Entendi sim sueli, e agradeço a explicação, se não fosse por você, eu provavelmente iria abrir a porta para ele pegar o relógio, mas sendo assim...
Ela se aproxima da mesa, pega o relógio entrega para a Sueli e diz:
- Vá Suely, devolva o relógio a ele e diga que foi eu que mandei.
A Sueli olha para ela, tenta falar, mas a Anny indica a porta da saída e diz:
- E mais uma vez, obrigada pelo aviso.
- Eu pensei que eu ia ajudar se eu falasse, se eu soubesse que não seria assim, eu

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teria ficado calada.
a Sueli se vai e a Anny fica pensando: - Preciso ter mais cuidado com a Sueli, vejo que o Adolfo já conseguiu uma aliada.
Os dias da Anny passam sempre na mesma rotina, até que algo desagradável acontece, deixando-a cheia de pânico. Foi quando ela estava se dirigindo para o trabalho certa manhã, e ouviu um rapaz lhe dirigindo a palavra, cumprimentando-a com insolência.
- Bom dia orgulhosa!
Ela continua a caminhar sem dar atenção ao jovem desconhecido. porém no dia seguinte o fato se repete. Se as coisas ficassem só nisso, sem problemas, mas o rapaz foi mais além. passou a ir ao trabalho dela a sua procura, e ela sempre se esquivando, e o medo já tomando conta dela. Até que certa noite, ela já estava deitada e ouviu que havia alguém do lado de fora da casa. Vai até a sala e fica aguardando. Nisso percebe que estão forçando a porta da frente. Apavorada pergunta:
- Quem está aí?
E quando ela ouve a resposta, sente um calafrio, reconhece a voz como sendo a do rapaz que a tem importunado nesses últimos dias.
- O que o senhor quer? - Pergunta a Anny.
- Eu quero você. - Responde o rapaz, e continua.
- Abra a porta, eu quero entrar, se você não abrir, eu arrombo. Estou armado.
E assim dizendo, manda ela olhar que ele não está mentindo.
Anny disfarçadamente tenta espiar pela janela e vê que ela não está mentindo. ela se enche de terror e tenta reunir um pouco de coragem e trêmula consegue falar.
- O senhor está louco? vá embora... Me deixe em paz.
Porém o rapaz continua insistindo e fazendo ameaças, até que se ouve barulho, é o filho da dona da casa que ia chegando nesse momento. Então o rapaz fala pra ela.
- Não vou desistir, nunca desisto do que quero, quando eu cismo com uma mulher, eu a tenho, por bem ou por mal.
e assim dizendo, se foi.
Ela passa várias noites sem dormir. durante o dia o rapaz sempre a estava

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perseguindo, e a noite rondava a sua casa, ela vive morrendo de medo e vergonha, até que um dia a d. Marina, proprietária da casa que a Anny estava morando, pergunta a ela se está havendo algum problema, pois já percebeu que a mesma tem se fechado em casa depois que chega do trabalho, e que proibiu a Sueli da sair de dentro de casa sem fechar as portas, mesmo que esteja indo só na calçada ver se ela já está chegando. eu estou preocupada minha filha, será que eu posso lhe ajudar?
A Anny aproveita a oportunidade e conta tudo a d. Marina, pois já há umas três semanas que ela está em pânico. A bondosa mulher, de imediato chama o filho e diz a ele que a partir daquela noite, ele vai dormir no terraço, e isso será todas as noites, até que ela diga o contrário, e conta pra ele o que está acontecendo. Anny fica um pouco tranquila, pois ela sabe que pra ir pra casa dela, forçosamente terá que passar em frente ao terraço da d. Marina. E assim foi feito. Só que o rapaz ao perceber que não mais poderia incomodá-la em casa, passou a incomodá-la ainda mais no trabalho.
Ela já não dormia mais, o medo a deixava apavorada, e a vergonha de ser perseguida, juntou-se ao desânimo de uma luta solitária, que se tornava cada vez mais cruel. e antes que aquele sujo episódio se tornasse público, ela resolve da única forma que sabe... fugindo.
Pede demissão do emprego e vai para a casa da avó, no interior, lugar que há muitos anos ela não visitava, desde aquele triste dia. poucos dias depois de estar na casa da avó, que foi recebida como se nunca nada tivesse acontecido(e ela achou melhor assim), ela consegue uma casinha pra alugar. Volta pra Recife, entrega a chave da casa a d. Marina. O seu tio, o Sandro a acompanhou, ele mesmo fez a mudança dela. a Anny ainda sentia muito medo dele, mas o seu perseguidor a atormentava muito mais, e o medo tornou-se maior do que o que ela sentia pelo tio.
Não procurara a família do Adolfo, deixara a Carla passar o dia com a avó e no final da tarde mandara pegar a menina e manda dizer que vai passar uma temporada fora. Ela se despede da sua tia e vai embora. ela mais uma vez partia para longe de tudo que estava sendo um problema na sua vida... Para longe do Adolfo... Longe de tudo que pudesse lembrá-lo. Mas infelizmente, ela sabia ser inútil, pois ele estava entranhado

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em seu corpo... E a Carla estava ali, para não deixá-la esquecer... Pois a cada dia que passava, mas ela se parecia com o pai.
Em sua nova morada, ela teria um pouco de paz, pois ali não haveria quem falasse sobre o Adolfo... Ou do Adolfo. O lugar servia perfeitamente para ela acomodar seus desgostos e suas frustrações. Seria uma vida monótona, mas ela tinha esperanças de conseguir ao menos um pouco de paz.




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JÁ ESTÁ DISPONÍVEL O VI CAPÍTULO: AGUARDEM

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