O barulho do trem parece não incomodá-la... Afinal, nada mais a incomoda... Nada mais parece fazer sentido. Olhos fechados... Pensamento longe, perdidos... Hilda tenta refazer o último trajeto,mas sente ser incapaz. o que teria acontecido para que sua mente se apagasse, negando a ela as lembranças de dias antes? Não sabe, não consegue recordar de nada por mais que se esforce. Tudo acontecera numa manhã de segunda-feira... Era um dia como outro qualquer. Ela acordara cedo, se arrumara e saíra para trabalhar. Ela trabalhava como secretária numa grande empresa. Mas isso era tudo o que ela conseguia lembrar. O que acontecera a partir daí, continuava sendo um mistério e ao que se percebia, estava ficando difícil de ser desvendado. Segundo alguns depoimentos, ela havia sido encontrada vagando naquele fatídico início de semana. A Hilda lembra de tudo sobre ela, menos do fato acontecido naquela manhã após ter saído de casa. A polícia nada encontrou de errado que ajudasse numa possível explicação ou justificativa nesse estranho e súbito ataque de amnésia. Sem dúvida era algo bastante intrigante. Ela se levanta e caminha devagar para a saída da estação. Ela tem os pensamentos em desalinho, e se angustia diante do pesadelo que tem se tornado a sua vida desde então. De resto tudo continua normal, como sempre. Do trabalho para casa e vice versa. Não gosta de sair para se divertir, tem poucos amigos e família, nenhuma por perto, todos moram em outras cidades, apenas ela mora ali...Essa havia sido a vida que ela escolhera para si, após o acidente que vitimou seu esposo, a um pouco mais d três anos. Sozinha, chorou a sua dor durante meses, agora vivia só, muitas vezes pensando no sonho que fora a sua curta vida de casada, mas ela tem consciência de que foram oito meses de felicidades. De repente ela para atônita e com um débil gemido desmaia... Ela estava saindo da estação... E, socorrida por funcionários da rede ferroviária, é levada para o hospital e ao retornar, parece em pânico... Grita e soluça ao mesmo tempo. Sim... Finalmente ela lembra do que havia acontecido na manhã daquela segunda-feira. Agora ela tinha absoluta certeza do que vira. Era ele, o Rafael,o seu marido que estava naquela estação ferroviária. Esclarecida a situação, o médico a libera. Hilda toma um táxi e parte para a estação. Ao chegar ela observa aquele homem barbudo, maltrapilho,mas que percebia-se ser ainda jovem. Ela se aproxima emocionada.Tenta puxar conversa mas ele se esquiva. Ela insiste e logo estão conversando. Ela pergunta o que ele está fazendo ali, ele diz não saber bem o que aconteceu. Tudo o que ele se lembra é que sofrera um acidente, estava em um carro com um homem, e que no momento do acidente, havia sido atirado para fora do mesmo, e provavelmente batido com a cabeça e mais nada conseguia lembrar. Passara algum tempo no hospital e após receber alta, ficara a vagar, pegando carona de um lado pro outro, e assim chegara aquele lugar. Hilda então se lembra que logo após o funeral, ela havia se mudado para outra cidade na inútil tentativa de esquecer aquela tragédia que pôra fim a uma vida de intensa felicidade. O homem que fora enterrado no lugar do seu marido, havia ficado completamente irreconhecível, pois o carro pegara fogo ao cair no abismo. e ela não parara por um momento sequer para questionar qualquer coisa que fosse, pois nada havia para ser questionado. Ela olha feliz para aquele homem e o abraça carinhosamente, enquanto ele a observa meio assustado. Ela sorri...Olha-o nos olhos e diz que ela é a sua esposa, que irá levá-lo para casa e com a ajuda da medicina e o tempo, ele irá se lembrar de tudo. Abraça-o e procura com avidez pelos seus lábios, e sente na retribuição daquele beijo que um novo horizonte está surgindo e que brilhará forte e não demorará para acontecer
Eu amo o meu passado... Aquele passado tão passado e que na verdade nunca passou, pois vive entranhado no presente, onde parece que tudo já foi...Já acabou.
Um presente mais que descontente... Um presente insatisfeito, que nem devia ser presente, pois certos presentes só mesmo o velho tempo é quem pode ser o doador, ou seja o grande malfeitor.
E o futuro, este sempre tao incerto, que como páginas viradas se perderá nesse provável deserto onde a falta de carinho não deixa mais chover e há muito nem sequer orvalhou...
E ai eu me pergunto em qual tempo o tempo cruel menos castigou? Só mesmo o passado, pois até hoje esse ele nunca matou... E tem sido ele o meu futuro tão esperado e o meu presente que ainda não chegou
O meu olhar nostálgico se descortina por toda a cidade, e eu sei que em cada canto uma história foi vivenciada, e eu faço parte de algum enredo. Ao longe vislumbro o mar revolto que em outros lugares espumeja na areia, mas que ali geme de dor ao se chocar nas pedras. A monotonia dessa tarde é quebrada pelas lembranças que insistem em me visitar...Nem parece que já se passaram mais de três décadas, e eu era só uma menina... Mas me lembro muito bem, quando naquelas longínquas tardes, muitas vezes eu me debruçara sobre a ponte Agamenon Magalhães(conhecida como a ponte do pina),onde eu deixava o meu olhar vagando em busca provavelmente do que seria hoje... A nostalgia invade... A saudade dói... Em dado momento a ouço gritar, querendo agarrar o que me foge por entre os dedos... Vida... Histórias que foram levadas pela correnteza das muitas águas que rolaram por baixo da ponte do tempo.
Por instantes imaginei ter visto O que em sonhos sempre estou a buscar E são nesses momentos, em definitivo Que encontro forças para na vida continuar
Incansável aprendiz dessa eterna paixão Sempre procuro por você para me encontrar E o que dita com força o meu coração É que eu devo insistir para então lhe ganhar
E mais uma vez... Assim, meio perdida A contemplar as centenas de rosto que vejo Eu sinto pela nossa história vivida Que é impossível diminuir esse meu desejo
E a cada dia que vai passando Em outros rostos sempre estou lhe vendo E eu sei que é por viver lhe desejando Que em todos os rostos vou lhe reconhecendo
Hoje eu senti uma dor tão aguda Que cheguei a pensar que não a suportaria Inutilmente ainda pedi aos céus ajuda Pois eu sabia que de ninguém o bálsamo chegaria
E para o meu desespero a dor mais se acentuou E eu senti o meu peito dilacerando sem cessar As lágrimas caíam, a angustia jorrou Senti então que a minha vida alí iria parar
Era tanta angústia ao desespero se misturando E a minha vida como um filme eu vi passar E vi a minha vida em nuances de mim zombando Era muito sofrimento que eu não tinha como parar
Que tristeza implacável... Nada de bom a sobrar E sei que é muito difícil querer transmitir O que já nem tenho conseguido sequer imaginar Mas sinto que da vida eu posso finalmente deisitir
Isso é o que me restou de anos de ilusões perdidas Décadas de sonhos perseguidos... Sempre em vão Talvez essa existência miserável,sem sentido,sem vida, Destruiu o que suportou com lealdade o meu coração
Vivi... Como um mero fantasma pouco queixoso Vivi... Como uma sombra perdida a vagar Sufoquei-me em meio aos desgostos sempre desejosos De um dia conseguir sem receios finalmente respirar
Já não poderei me perguntar o que farei agora Pois já não há mais tempo pra querer esperar Talvez seja essa realmente a minha última hora E eu nem deva em esperanças ainda querer pensar
Pois eu sei que morro... Como sempre vivi... Olhos rasos d'água, coração suspirando por temer É que eu sei que morro sabendo que para a vida perdi Perdi a batalha mais importante... E o troféu era você
E sinto que ao morrer tão sozinha... tão vazia Percebo que isso é tão somente a continuação Dessa minha existência de resumidas alegrias Tão cheia de planos perdidos, mas repleta de solidão
Eu as vezes sinto ímpetos de saber Como será que vives a tua vida E o que tens feito para esquecer A história que por nós foi vivida
E muitas vezes eu penso em tudo Que um dia por mim foste capaz E as lembranças de cada minuto Ainda tira do meu viver a paz
São recordações que me atordoam Pois nelas estão as muitas emoções E por mais que elas ainda me me doam Não consigo amargar as muitas desilusões
Ah! se pudesses ver hoje em dia Sentirias que muito pouco restou Em mim não há vestígios de alegria Pois só há fingimentos e muita dor
E eu não esqueço teus braços aconchegantes Nem os teus lábios de beijos tão ardentes E de modo lúbrico, meus sentidos estonteantes Vê teu olhar a desnudar-me voluptuosamente
Essa ausência tão grande de paz Que rodeia a minha alma entristecida Sempre me mostra que o tempo não foi capaz De evitar todas essas lágrimas vertidas
Foram tantas noites de intensa solidão Que a tua ausência em mim provocou E hoje o desalento que mora em meu coração É consequência da perca do teu amor
E pra mim tem sido quase impossível Viver... Pois eu vivo como quem morre Pois no meu entender é muito difícil Viver uma vida que não se escolhe
E assim a minha vida perdida se fez É que eu vivo só de lembranças e saudades Muito embora eu ainda espere outra vez Ainda vivermos momentos de felicidades
Quantas vezes, cansada de tudo me aconchego Nos tristes e frios braços da minha solidão Para sentir um misto de tristeza e medo Ao perceber toda a fragilidade do meu coração
E mergulho na indiferença desse abraço Sentindo que em nada ele pode me ajudar E sinto aos poucos me asfixiar nesse laço Que como tentáculos parecem me aprisionar
Já não há mais brilho em meu olhar Há muito este perdeu a beleza e o calor A emoção já não consegue me motivar Pois em minha vida é forte o desamor
E assim, pouco a pouco consigo perceber O grande tumulto formado em minha vida É que o destino levou pra sempre você Só me restando as lembranças incontidas
E as lágrimas ao correrem livremente Lavam a minha alma já tão amargurada Eu sei que nos perdemos, infelizmente E para mim só restou uma vida destroçada
E a Nice se remoia... As vezes de ciúmes, as vezes de necessidades,mas vivia a se remoer. Seu marido, o Paulo,não mais se fiava na condição de macho, embora não fosse tão velho (62 anos), mas jurava de pé junto(como se fosse defunto, e olha que já estava mesmo pra defunto), que não havia mulher nenhuma na vida dele (e ele tava certo, pois nem a Nice era mulher na sua vida (também pudera, ninguém manda casar com mulher muito mais nova). E o tempo vai passando... O coitado do Paulo, (o defunto vivo, como ela dizia) continuava apagado, e já nem insistia mais,não tinha mesmo jeito. O pobre infeliz já nem sabia mais como fazer o que devia de ser feito. E a Nice continua a se remoer... Até que um dia ela mesma resolve cuidar da situação. Se emperiquita toda, põe seu perfume mais cheiroso (para quem não tem gosto refinado, aliás nem precisa de tanto, basta ter um pouco de bom gosto), e sai a cantarolar... Afinal ela podia... Claro que podia, ainda era jovem e... Viúva... Viúva sim... Ainda que fosse de marido vivo.