Esse vento que sopra preguiçoso Que não consegue varrer minha lembranças As vezes até me lembra pensamentos bobos Daqueles que só os têm, as crianças
A paisagem bucólica de pura nostalgia Me trazem recordações que chegam a doer O burburinho das crianças em sua alegria Me lembra outras crianças que eu vi crescer
E não falo só das minhas filhas que aqui cresceram Mas de todas aquelas que por aqui eu via passar A maioria cresceu, casou...Outras no tempo se perderam E algumas poucas, agora adultas, aqui resolveram ficar
Tempos bons... Saudade boa que eu ainda consigo sentir E pareço ainda ouvir os risos das crianças a espocar Mas o tempo, esse, hoje ainda consegue me fazer sorrir Diante dessa muitas lembranças que insistem em voltar
Nessa tarde modorrenta, observo a movimentação dos caminhões de cana que passam carregados para a usina, e é sempre a mesma coisa, desde a primeira vez que aqui estive.Um ou outro grito se escuta dos trabalhadores que se comunicam, mas que apenas eles entendem o que está sendo dito. Observo crianças que passam correndo, outras que param na esquina conversando, como se discutissem algo muito importante. Pelo que vejo, nada mudou nesses mais de vinte anos que conheço esse lugar, a não ser pelas caras novas que tenho visto. De resto está tudo igual... Pais que se aposentam e os filhos vão ocupando seus lugares... Os mesmos sons... A mesma nostalgia... o mesmo tédio... Quase que o mesmo tudo
Esse bafejo morno que chega ao meu pescoço Impregnando meu todo,me lembrando outros momentos Me fazendo reviver seu toque mágico e gostoso Que até hoje não me sai da cabeça,para meu tormento
Esse som que lembra o farfalhar de uma palmeira Me faz voltar no tempo...Quando eu ainda o esperava E sinto na pele como se eu ainda fosse a primeira A sua primeira... O seu primeiro sonho que buscavas
Fecho os olhos e pareço sentir seus longos dedos me tocando Sua língua...Como labareda a queimar-me por inteiro E o seu olhar lascivo a penetrar na minha alma, me desejando Me possuindo, marcando-me para sempre como o seu amor primeiro
Nunca mais eu pude sentir a magia da sua encantadora sedução Nem dos seus toques,que ao lembrá-los ainda me faz enlouquecer Até hoje, me sinto presa nessa grande e inexplicável ilusão De que um dia ao abrir meus olhos, vou ter diante de mim você
A minha irmã, a Georgete É uma menina do bem Com ela a gente se diverte Pessoas como ela, é raro também
Procura sempre aos outros ajudar A maldade com ela não tem vez É uma pessoa digna de se admirar Dela, passa por longe a insensatez
E sempre que ao telefone nos falamos Me vem a mente as mais doces lembranças Daquelas que não importa o passar dos anos Pois são recordações que nos enche de esperanças
Confesso: O nosso convívio é até muito pouco Mas também em nada a nossa amizade interfere E nessa vida agitada e nesse mundo louco As lembranças, a nos procurar nos impele
E não importa o tempo nem a curta distância Que ainda temos a nos manter separadas Ouvi-la, sempre me transporta a nossa infância E é um sentimento que nos une, mesmo se caladas
A minha irmã Georgete é realmente uma pessoa incomum Eu diria, um anjo, com palavra amiga a quem precisar E até hoje não consigo me lembrar de momento algum Dela ter dado as costas a quem um dia foi lhe procurar
Meu dias se perdem em saudades E minha alma agoniza na solidão O muito que tenho em amizades Se resume a uma minúscula porção
E a cada novo dia que vem surgindo Sinto aumentar a tristeza do meu coração Eu queria não viver para mim mentindo Fingindo sempre, enganando-me a cada ilusão
Da vida o muito que tive sempre foi pouco E o melhor até a mim, esse nunca chegou Meus gritos de protesto contra a vida foram roucos Pois o medo, a esses meus gritos sempre sufocou
E é assim que sempre vou levando essa minha vida Que de angústia em angústia vivo nelas a mergulhar E a minha alma tão desgastada e tão sofrida Muito em breve eu sei, irá finalmente descansar
E até receio que para isso não falta muito tempo O meu corpo cansado isso já está a demonstrar E nesse dia terei meus pensamentos soltos ao vento Tentando numa derradeira vez poder te alcançar
E eu sei que dessa vez será mesmo assim A vida eu sinto não terá como isso desfazer Já que será meu último desejo... Nesse meu fim Deixar a minha saudade afagar pela última vez você
Será que eu fui do destino uma vítima? Ou... Sou uma vítima sem referencial Vítima triste... Vítima sem igual Vítima das circunstâncias... Talvez a vida com sua arrogância Me tenha feito apenas mais uma vítima Vítima do destino,e tão somente desigual
Uma vítima do acaso Do descaso Ou uma vítima diferente... Talvez apenas Indiferente Perdida em meio a tanta gente Que as vezes me dirigem um olhar Como se eu fosse uma indigente Pensando que nada vou perceber
Mas assim é a vida... Para uns sorridente Já para outros... Infelizmente Só a tristeza À sua porta vem bater...
E a vida continua com seus momentos E alguns tão incabíveis, Que de momento nem os consigo citar... Outros são um tanto calmos Mas as vezes tão descontentes Que logo descubro Ser melhor continuar a sonhar